Crônicas de uma morte anunciada: as 24 horas que antecederam a morte de professora em RO

As 24 horas que antecederam uma tragedia em Candeias do Jamari, região metropolitana da capital de Rondônia, Porto Velho, mostram como o descaso com a vida é levado a cabo nas delegacias pelo país, por conta de leis que, embora levem em consideração o amplo direito de defesa, desfavorecem o elo mais fraco das história de assassinatos pelo país: a vítima.

Uma prisão, um pagamento de fiança que ao fim representou o preço de uma vida e uma possível medida protetiva. Esse é o enredo na morte de Joselita Félix, educadora cruelmente espancada por pauladas que lhe tiraram a vida e deixaram seu pai em estado grave no Hospital e Pronto Socorro João Paulo II, na Zona Sul da Capital.

Ueliton Aparecido, que é suspeito de ter matado a ex-mulher a pauladas, havia sido preso um dia antes do crime. Segundo a Polícia Civil (PC), no sábado (16) Ueliton já teria agredido Joselita fisicamente, porém o suspeito pagou uma fiança de R$ 4 mil e acabou liberado para responder em liberdade.

Um dia depois, já no domingo (17), solto, o suspeito invadiu a casa da família da professora, em Candeias do Jamari, e matou Joselita com vários golpes de madeira, a maioria deles na cabeça.

Em entrevista à Rede Amazônica, emissora filiada a Rede Globo, o delegado Fábio Moura afirmou que o crime de agressão é afiançável, ou seja, o suspeito pode ser solto depois de pagar uma fiança.

“A fiança foi relativamente alta para a situação, pois normalmente essas fianças são menores. Pelo risco que ele oferecia à vítima, foi estipulado um valor alto, porém este valor acabou sendo pago por Ueliton”, disse em entrevista.

Agora, após o crime concretizado, o suspeito segue preso, sem direito a fiança. Ele pode ser acusado perante a justiça pelo crime de feminicídio.

Áudio e medida de restrição

Um áudio, divulgado também pela Rede Amazônia, mostra que um dia antes de ser morta a professora mostrava a preocupação com sua segurança e tinha medo do suspeito, para uma uma amiga ela faz relatos da situação com o ex-companheiro.

A vítima menciona que queria entrar com uma medida protetiva contra ele. Segundo ela, caso o suspeito tentasse chegar perto dela, seria preso sem o direito de pagamento de fiança.

“Mas com a medida protetiva, ele sabe que se acontecer, se ele me ligar, se ele fizer qualquer coisa, vai preso sem fiança, entendeu?”, menciona Joselita.

De acordo com o áudio, enviado a uma amiga no sábado (16), a vítima disse que entraria com o pedido nesta segunda-feira (18), porém não teve tempo. Horas depois Joselita foi covarde cruelmente assassinada dentro de casa.

“To muito, muito machucada, muito machucada. Eu tenho um pouco de vergonha de falar isso, entendeu? Que nunca apanhei de ninguém. Foi para a delegacia, foi a coisa mais horrível que eu passei na minha vida”, disse a vítima após ter sido agredida.

O boletim de ocorrência da primeira prisão do suspeito foi registrado pela Polícia Militar (PM) como lesão corporal, caracterizado como violência doméstica.

“Pedi tudo que eu tinha direito, né, medida protetiva e tal. Vou representar em tudo. E aí eu vou agora tentar me proteger até sair a medida de segurança, que na verdade é só um limite pra ele”, mostra o áudio.

Já prevendo que a medida pouco teria efeito, algo que é uma realidade no país a educadora emenda

“Não é o que vai me dar segurança. Eu vou ter que mudar toda a minha rotina, entendeu?”, disse a vítima.

O boletim, que já trata da morte da professora, foi registrado no dia mesmo dia do crime como feminicídio e tentativa de homicídio contra o pai da vitima que na tentativa de impedir o pior, acabou sendo atacado. O senhor de 74 anos segue internado com escoriações na cabeça, o estado de saúde dele é estável.

Números

Os primeiros 10 dias deste ano reservam uma média chocante as mulheres do Brasil: a cada dia, ao menos duas mulheres foram assassinadas, num total de 21 mortes, de acordo com levantamento online organizado pelo doutor em Direito Internacional pela USP Jefferson Nascimento. O documento mostra também que houve ao menos outras 18 tentativas de feminicídio.

Em janeiro, é registrado um caso em RO, Vanessa Souza Nascimento foi morta e enterrada na zona rural de Cujubim.

Em fevereiro, aponta o estudo, mais um caso oficial foi registrado em Nova Califórnia, distrito de Porto Velho. O caso, também consumado, resultou na morte de Vanderlene Feitosa de Lima, ela foi morta a tiros.

O levantamento está atualizado com dados de todo país até o último dia 09 de março.

Agora, para engrossar a lista, o caso de Joselita Félix. A pergunta que fica no ar é: até quando?

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