Eu não estou ansiosa. Eu sou ansiosa. E entender isso me fez entender quem eu sou

Por: Maíra Modesto – Jornalista

Ansiedade…

Se viver no passado te acarreta uma depressão, e viver apenas no presente te faz não ter planos, a ansiedade chega para te lembrar do que acontece com quem só pensa no futuro. Mas não se engane, vai além dos lembretes no celular, da agenda organizada, do calendário colado na geladeira. É um excesso de preocupação que te faz checar três, quatro, cinco ou mil vezes a barra de notificações, a caixa de e-mail e seu feed de alguma mídia social.

Ansioso não é aquele cara que não consegue dormir porque amanhã cedo tem uma entrevista de emprego, ansioso é o cara que está pensando que antes da entrevista de emprego ele precisa tomar banho, escovar os dentes, tomar um café, passar a camisa (que será que ele lavou? Agora já nem sabe mais!), depois disso precisa também imprimir mais uma cópia do currículo porque vai que, tudo pode acontecer, a cópia que ele já tem rasgue? Ou molhe? Ou suma? Ah, ele tem também que verificar se não deixou o gás ligado quando sair, ou se apagou a luz do quarto… Será que acordar as 8:00 para uma entrevista marcada as 11:00, da tempo? Não, melhor acordar as 7:00 só por via das dúvidas. E quando ele vira para o lado para ver que horas são, na esperança de calcular quanto tempo lhe resta de sono, o relógio já marca 6:00 e nesse momento nem vale mais a pena dormir.

Isso é ser ansioso. Preocupações demais, detalhes demais, pensamentos demais. Tudo demais! Tempo de menos.

Há um abismo de diferença entre estar ansioso e ser ansioso. Quem sofre com a querida protagonista desta crônica não sabe quando ela irá embora… Afinal, ela não acaba depois do compromisso importante, depois do encontro, depois do jogo ou depois do banho. Ela continua ali, pendurada na sua orelha, gritando e incomodando. E então você se dá conta que você já nem sabe mais por qual motivo você está ansioso, você apenas está! Ou melhor. Você é. Você é ansioso.

A ansiedade te faz querer saber como vai ser o amanhã, e depois de amanhã, e o depois de depois de amanhã… E o natal! E as férias, e o seu aniversário, e o seu emprego e tudo que te rodeia. É querer viver antes mesmo de ter acontecido. É viver no anseio de não conseguir esperar nem mais um segundo para fazer acontecer. Mas travar no instante seguinte. Estagnar enquanto o coração acelera e o mundo não para. A ansiedade vem e nós não percebemos muito bem o por quê, as vezes nem percebemos que ela veio.

Nossa mente trabalha todos os dias, em todos os minutos e segundos, ela nunca para! Nos dá orientações do que fazer, tenta nos manter focados. Ela é a nossa maior aliada e, às vezes, a nossa maior inimiga.

Você pode tentar seguir um cronograma, organizar seu dia, sua semana ou o seu mês… Mas a ansiedade não deixa você enxergar direito as coisas, é como andar em meio a neblina.

Uma crise de ansiedade pode durar minutos ou horas, e você pode até pensar que quando ela acaba o pior já passou, mas a parte mais difícil são os minutos pós crise. Você não sabe onde está, nada faz muito sentido, e onde há alguns segundos atrás era dor e queimava, agora nada mais é que um buraco vazio, um enorme torpor. Afinal, tudo o que você planejou não se concretizou e a sensação de falha, de não ter dado certo, de não ter sido como você queria, é massacrante.

Cai sobre você a verdade que, embora você não saiba como, você precisa agir. Só pensar não te levará a lugar nenhum, só planejar não fará acontecer e, infelizmente, é hora de algo ser feito. Após um pico de ansiedade você compreende que isso tudo é o conjunto de conclusões inexatas que sua mente cria, e você não tem outra escolha a não ser aceitá-las.

Aceitar também que a ansiedade é uma doença. E é séria. Tão séria que precisa ser tratada por profissionais que vão muito além dos conselhos que um amigo consegue te dar.

A ansiedade te impede de dormir, te impede de comer (ou de parar de comer), te impede de levantar da cama, te impede de parar de pensar mil cenários diferentes, te impede de agir… Ela te impede de viver.

Eu não estou ansiosa. Eu sou ansiosa. E entender isso me fez entender quem eu sou.

Eu crio mil e um diálogos que nunca acontecerão. Eu planejo mil e um cenários que eu nunca verei. Eu escrevo minha agenda, mas não sigo ela. Eu anoto meus compromissos, eu chamo meus amigos para sair, eu marco um barzinho no final do mês… E isso nunca acontece de verdade.

No meu caso, em particular, não existe uma única coisa que esteja desalinhada, uma única coisa que eu precise ajeitar para mandar embora esse nó na minha garganta ou esse coração acelerado. Não! Muito pelo contrário, eu olho ao redor e reconheço tudo. Reconheço até demais eu diria, pois eu reparo em cada mínimo detalhe e vejo onde posso melhorar, e melhorar, e melhorar, e… Tentar deixar perfeito.

As coisas andam bem, tudo está bem. Mas a minha cabeça insiste em deixar perfeito algo que nunca será perfeito. Minha mente insiste em passar e repassar cada mínimo detalhe do meu dia antes de dormir, e começar a planejar cada mínimo detalhe do dia que está por vir. E eu nunca desligo.

O mal do século XXI é o que assombra mais da metade da população, você conhece alguém ou até mesmo sofre com a dupla dinâmica depressão e ansiedade. E não é à toa! A tecnologia chegou e com ela veio o fardo de nunca mais se desconectar. Ficamos ligados 24 horas por dia, 7 dias na semana. Tem como se acalmar assim?

É agoniante pensar que muito depende de nós, que muito depende de nossas escolhas, de nossas ações. Até ontem eu brincava de casinha, e hoje eu preciso trabalhar para bancar a minha casinha. Irônico, no mínimo.

Pensar em crescer é assustador, é difícil! Mas ninguém nunca disse que seria fácil.
Então, enquanto o tempo passa e eu penso em como melhor posso aproveitá-lo, vou repetindo aqueles exercícios de respiração, esquentando um chá e conversando com a minha terapeuta.

É ansiedade, você veio para ficar. Mas o que você não esperava é que eu pudesse aprender a conviver com você…

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