QUARENTENA: A cesárea e suas marcas

Durante nove meses eu me senti a mulher mais realizada do mundo com uma gravidez agradável. Apesar de me abdicar de coisas que eu gostava de fazer ou comer, eu praticamente continuava vivendo a vida como sempre.

Mas eu sabia que logo o grande dia do nascimento do meu bebê chegaria. E digamos que a preparação para esse dia foi extensa. Eu queria que o meu parto fosse o mais ‘natural’ possível. Li histórias e livros, assistia muitos vídeos e até consultei uma doula. Eu tive uma visão de como seria a minha experiência no grande dia, mas não gastei muito tempo considerando como minha mente e meu corpo se sentiriam depois disso.

Pensei muito em cuidar do meu bebê, é claro, mas nunca pensei muito no que aconteceria comigo nos dias e semanas depois que ele chegasse. Lembro que em um dia de consulta do pré-natal, conversando com outra mulher gestante, em que ela mencionou como eu me sentiria ‘grosseira’ depois de ter tido o bebê. Porém, eu estava tendo uma gravidez fácil e planejando um parto normal, então eu simplesmente não conseguia entender como, depois da entrega, eu podia sentir algo além de felicidade de ter o meu filho no colo.

Se você tiver parto normal, você sentirá dores, exaustão e emoção, no mínimo, após o parto. Muitas mães precisam fazer a episiotomia, aquele pequeno corte no períneo, o que resulta em pontos. Vai doer para sentar. Se você andar do seu quarto para a cozinha, você vai ficar dolorida. Pode queimar quando você for ao banheiro. Você precisará usar pacotes de gelo nessa região também. O que posso dizer? Nascimento pode ser lindo, mas definitivamente não é sexy.

Se você tiver parto cesariana, você sentirá ainda mais dores, num período exato de 42 dias. O chamado puérperio. O famoso resguardo. Você sente dores nas costas, dor ao sentar, não consegue se deitar tão facilmente, tem que ter uma alimentação regrada, não podendo fazer várias coisas por este período.

A mulher com quem falei durante a gravidez estava certa: Eu me senti nojenta. Eu me senti exausta. Eu não me sentia como eu mesma. Não foi só porque eu senti que tinha sido atropelada por um caminhão, mas também era como meu estado físico me afetava emocionalmente. Eu senti que meu corpo foi destruído depois que eu tive um bebê. Como mãe de primeira viagem, eu não tinha ideia de que me sentiria assim e, mais ainda, o quanto me assustaria.

Vivendo em uma sociedade onde se espera que as mulheres sempre tenham a melhor reação, independente das circunstâncias, foi muito difícil para mim para me sentir bonita dias após o nascimento do meu filho. Sempre me orgulhei de minha aparência, mas nas semanas após o bebê chegar em casa, eu olhava no espelho e via uma mãe cansada com bolsas embaixo dos olhos, sem maquiagem e de pijamas sujos de leite. Eu senti como se tivesse desistido da capacidade de parecer atraente novamente. Embora tudo isso pareça superficial, eu realmente senti que uma parte da minha identidade havia sido tirada de mim e isso era inquietante.

Trazer um bebê para casa é um grande ajuste na vida e há muitos hormônios envolvidos. Para algumas mães, esses sentimentos desaparecem depois de algumas semanas e as alegrias da maternidade começam a surgir. Na época, eu não achava que isso passaria. Pesquisei sobre e lá dizia que a porcentagem de mães que sofrem de depressão pós-parto é de 10 a 20%. Sugiro que se você acha precisa de ajuda, converse com seu médico, com seu parceiro, amigo. Mas não deixe de se cuidar!

Felizmente, com o tempo, consegui resgatar aspectos da minha vida que haviam sido colocados em segundo plano desde a chegada do meu filho. Uma vez que minhas feridas se curassem, eu poderia andar sem me sentir dolorida me sentar sem desconforto. Eu comecei a me sentir mais como eu mesma. Eu fiz um esforço para sair de casa e me encontrar com uma grande amiga de infância. Se eu não pudesse sair, pelo menos conversaria com um amigo pelo telefone. Eu acho que uma grande parte dos meus sentimentos negativos sobre a minha identidade sendo perdida foi agravada pelo sentimento de isolamento que é tão comum para as novas mães. Conectar-se com amigos realmente ajudou a aliviar esse sentimento solitário.

Depois desses 42 dias mais longos da minha vida, meu filho começou a dormir mais, o que significava que eu me sentia menos exausta. Tentei encontrar tempo para assistir, fazer meus afazeres de casa com mais tranquilidade ou ler um livro. Minha licença-maternidade ainda não acabou, mas confesso que sinto falta do meu trabalho (risos do meu pai). Meu bebê foi se tornando mais fofo a cada dia. Meu marido e eu reiniciamos nossa rotina.

A verdade é que eu não me sentia completamente igual a mim mesma. Eu me lembro claramente do dia em que isso aconteceu. Sentei-me à mesa da minha sala de jantar depois de colocá-lo para dormir e estava trocando mensagens com uma amiga. Essa sensação de repente veio sobre mim como ‘Uau, eu me sinto normal de novo!’.

Sim, tornar-se mãe é uma grande bênção e existem muitos momentos perfeitos nessa relação. Mas isso não significa que devemos ignorar ou invalidar as partes menos bonitas ou mais desafiadoras da experiência.

Desejo a todas as mães grávidas um parto e recuperação fáceis e a força interior para se lembrar de que você é linda e que os tempos difíceis passarão!


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